Não tem médium, e agora? – parte 1

Vamos explorar outro texto de Allan Kardec. Dessa vez a respeito da escassez de médiuns, isso mesmo! Esse artigo de Kardec gira em torno do problema recorrente da falta de médiuns. Vamos abordar esse artigo em partes pois será necessário aprofundarmos, tanto quanto está ao nosso alcance, outros aspectos da Doutrina Espírita.

O artigo é publicado em Fevereiro de 1861 e se inicia assim:

Conquanto só recentemente publicado, “O Livro dos Médiuns” já provocou em várias localidades o desejo de formar reuniões espíritas íntimas, como nós aconselhamos. Escrevem-nos, entretanto, que param ante a escassez de médiuns. Por isso julgamo-nos no dever de dar alguns conselhos sobre a maneira de supri-los.

Vamos entender: já havia se passado um mês da publicação da primeira edição de O Livro dos Médiuns. O que isso significava para o movimento espírita? Que agora todos tinham em mãos um manual que lhes permitia estabelecer comunicações de qualidade com os Espíritos, de forma lúcida e segura. O livro era o complemento do Livro dos Espíritos e continha a parte experimental do Espiritismo, resultado dos estudos de Allan Kardec, fruto de suas experiências e do ensino dos Espíritos.

O que lemos no trecho acima a respeito do efeitos produzidos por causa daquela publicação?

“O Livro dos Médiuns” já provocou em várias localidades o desejo de formar reuniões espíritas íntimas.

Sim, os Espíritas se sentiam muito à vontade para realizarem suas reuniões, sem preconceitos e sem pavores. Não é que Allan Kardec, de repente, se deparou com a notícia de que os Espíritas, para sua surpresa, estavam a realizar reuniões. Não é nada disso, essas reuniões, assim chamadas reuniões íntimas, eram praticadas conforme os conselhos de Allan Kardec.

Ah, mas é por que naquela época não haviam os centros espíritas — argumenta você, caro leitor.

Não, não é por causa disso. Afinal, haviam as sociedades organizadas, os centros espíritas propriamente ditos, mas independentemente deles, os Espíritas eram livres para realizarem suas reuniões. E ninguém há de se surpreender pois o Livro dos Médiuns quase que na sua totalidade tem um conteúdo voltado para o indivíduo, basta lermos o capítulo que trata do desenvolvimento da mediunidade, Capítulo XVII – Da formação dos médiuns, a exceção são os capítulos finais que tratam das reuniões em geral e das sociedades. Vejamos o O Livro dos Médiuns, Das reuniões em geral – item 324 e o item 334, Das sociedades propriamente ditas

324. As reuniões espíritas podem ter grandíssimas vantagens, por permitirem o esclarecimento pela permuta de pensamentos, pelas questões e observações que cada um pode fazer, de que todos aproveitam. Mas, para que delas se tirem todos os frutos desejáveis, requerem condições especiais, que vamos examinar, porquanto erraria quem as comparasse às sociedades ordinárias. De resto, sendo as reuniões um todo coletivo, o que lhes concerne é a consequência natural das instruções precedentes; cabe-lhes tomar as mesmas precauções e preservar-se dos mesmos escolhos que os indivíduos; foi por isso que colocamos esse capítulo por último.

334. Tudo o que dissemos das reuniões em geral se aplica naturalmente às Sociedades regularmente constituídas, as quais, entretanto, têm que lutar com algumas dificuldades especiais, oriundas dos próprios laços existentes entre os seus membros.

Tanto no item 324 quanto no item 334, Kardec destaca a necessidade de um cuidado específico para as reuniões em geral e também para as sociedades, ele diz no item 324 “requerem condições especiais” e completa quanto às instruções precedentes, “cabe-lhes tomar as mesmas precauções e preservar-se dos mesmos escolhos que os indivíduos” e no item 334 “têm que lutar com algumas dificuldades especiais” e explica do que se trata “oriundas dos próprios laços existentes entre os seus membros.

Quando se trata de reuniões de sociedades ou grupos espíritas é preciso considerar condições e dificuldades que lhe são próprias, em outras palavras, as reuniões espíritas íntimas por não requerem essas condições e dificuldades especiais, tornam-se mais viáveis.

Do ponto de vista técnico as reuniões espíritas íntimas ou particulares são as que possuem melhores condições para serem implementadas. Nunca Allan Kardec estabeleceu que as reuniões mais adequadas são as que são feitas nos centros ou sociedades espíritas! Na sua obra não vamos encontrar o entendimento de que o local faz alguma diferença. Como dito acima as reuniões em sociedades ou grupos enfrentam mais dificuldades para que se tenham boas comunicações. Até por que a qualidade da reunião depende muito mais dos componentes individuais reunidos do que do local em si. A homogeneidade é fator decisivo na qualidade da reunião, não é o único fator, mas é o que Kardec confronta quando compara reuniões em sociedades com as reuniões íntimas.

No artigo que ele viria a publicar em Dezembro daquele mesmo ano, 1861, intitulado Organização do Espiritismo, Kardec fala das reuniões da sociedades e aponta qual o melhor caminho para sua organização.

Ora, como dissemos, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros. Os grupos se formam naturalmente, pela afinidade de gostos, de sentimentos, de hábitos e de posição social. Todos ali se conhecem e, como são reuniões particulares, tem-se liberdade de definir a quantidade e de selecionar os que são admitidos.

Quando ele diz que é preferível vinte grupos com vinte membros do que um só grupo com quatrocentos, ele explica que assim é melhor porque em grupos menores há afinidade de gostos, de sentimentos, de hábitos, ou seja, a homogeneidade tende a ser mais facilmente alcançada pelo menor número de variáveis que compõem a reunião. Em outras palavras, quanto mais gente, mais pensamentos, mais sentimentos, mais pontos de vista, e quanto mais, mais difícil de se haver uma homogeneidade porque as possibilidades variam na mesma proporção, aumentando a dificuldade espiritual, isso explica por que as reuniões abertas ao público não são favoráveis às boas comunicações.

Por essa lógica, as reuniões familiares ou íntimas partem do princípio de que possuem poucos membros e de que em tese todos se conhecem, se amam e se querem bem. Lembre-se que esse texto é sobre o artigo de Kardec que trata da escassez de médiuns. Esse texto foi escrito em 1861, pois em Janeiro de 1867, Kardec publica outro texto, chamado Olhar retrospectivo sobre o movimento do Espiritismo, no qual ele faz uma avaliação do movimento espírita.

Há algum tempo as reuniões espíritas sofreram uma certa transformação. As reuniões íntimas e de família multiplicaram-se consideravelmente em Paris e nas principais cidades, em razão da própria facilidade que acharam em se formar, pelo aumento do número de médiuns e de adeptos. No princípio os médiuns eram raros; um bom médium era quase um fenômeno; era, pois, natural que se agrupassem em torno dele, mas à medida que essa faculdade se desenvolveu, os grandes centros se fracionaram, como enxames, numa porção de pequenos grupos particulares, que têm mais facilidade de se reunir, mais intimidade e mais homogeneidade em sua composição. Este resultado, consequência da própria força das coisas, estava previsto. Desde a origem assinalamos os escolhos que naturalmente deveriam encontrar as sociedades numerosas, necessariamente formadas de elementos heterogêneos, abrindo a porta às ambições e, por isto mesmo, expostas às intrigas, aos complôs, às manobras surdas da malevolência, da inveja e do ciúme, que não podem emanar de uma fonte espírita pura. Nas reuniões íntimas, sem caráter oficial, as pessoas são mais senhoras de si, conhecem-se melhor e recebem quem elas querem; ali o recolhimento é maior, e sabemos que os resultados são mais satisfatórios. Conhecemos bom número de reuniões deste gênero, cuja organização nada deixa a desejar. Há, pois, tudo a ganhar nessa transformação.

Nesse artigo, Kardec lança um olhar retrospectivo, no qual se constata que seus conselhos foram ouvidos pois ele diz As reuniões íntimas e de família multiplicaram-se e justifica em razão da própria facilidade que acharam em se formar, pelo aumento do número de médiuns e de adeptos.

Nesse texto de 1867 ela faz ligação com esse artigo que ora estamos explorando, esse que trata da escassez dos médiuns, pois Kardec lembra que no “no princípio os médiuns eram raros”. A escassez foi superada ao longo do tempo, mas ainda sobre as reuniões familiares ou íntimas, Kardec diz: os grandes centros se fracionaram, como enxames, numa porção de pequenos grupos particulares, que têm mais facilidade de se reunir, mais intimidade e mais homogeneidade em sua composição.

Atentem para o que ele chama a atenção pois que diz que os grupos particulares têm mais facilidade para se reunir e mais intimidade, faz todo o sentido já que esses grupos eram compostos por núcleos familiares no qual muitos dos participantes já conviviam no mesmo espaço, no mais um ou outro amigo da família era a exceção, enfim todas pessoas muito próximas umas das outras que se queriam bem e tinham entre si uma natural afinidade.

É o que ele diz sobre as vantagens das reuniões particulares “Nas reuniões íntimas, sem caráter oficial, as pessoas são mais senhoras de si, conhecem-se melhor e recebem quem elas querem; ali o recolhimento é maior, e sabemos que os resultados são mais satisfatórios.

Em oposição a essa ideia ele contrasta a situação dos grupos lotados nos quais muitas vezes participam pessoas que não se conhecem, que não são nem sequer amigas, reuniões numerosas que naturalmente contam com mais possibilidades de possuírem elementos dissonantes do conjunto, vejamos “Desde a origem assinalamos os escolhos que naturalmente deveriam encontrar as sociedades numerosas, necessariamente formadas de elementos heterogêneos”.

Não se pode deduzir dessa leitura que necessariamente as reuniões nos grupos espíritas são sempre piores que as reuniões íntimas. Não é isso. Um grupo espírita ou uma sociedade espírita que conte com um número reduzido de membros numa sessão poderá alcançar a homogeneidade que em tese é possível de se obter nas reuniões familiares. O que importa é a homogeneidade. O erro é se entender que só é possível realizar reuniões espíritas em um grupo ou em uma sociedade organizada e ainda mais por causa de certas propriedades que o local possui.

Essa afirmação não se sustenta pela obra de Allan Kardec pois como estamos lendo em seus artigos, ele ressalta a qualidade das reuniões íntimas ”sabemos que os resultados são mais satisfatórios”.

Das duas, uma: Kardec tem razão ou então não tem. O seu ensino aí está para compreendermos melhor o Espiritismo. Ninguém é obrigado a concordar com ele, nosso papel é de resgatarmos um conhecimento que quase sempre é mistificado porque é ignorado ou é ignorado porque é mistificado. Alguém que se depare com essas leituras pode dizer que isso servia naquela época e que hoje não serve mais. Ora! Pensar dessa forma é estabelecer que somente alguns ensinos de O Livro dos Médiuns são válidos. Pensar dessa maneira é servir-se do Espiritismo à la carte. Então dessa maneira molda-se o ensino de Allan Kardec para adequá-lo ao que um ou outro acha que é certo, mas o que deve interessar para os espíritas é o que Allan Kardec pensa.

Até aqui nos detemos sobre a importância das reuniões espíritas íntimas, particulares, feitas em casa ou em qualquer lugar… É no contexto dessas reuniões que Allan Kardec desenvolve seus conselhos quanto a falta de médiuns. Nos próximos textos vamos explorar outros detalhes importantes.

Continua