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Espíritas Instruções de Kardec

Kardec, não sei

Alguns ensinamentos de Kardec não vêm para os espíritas na forma de mandamentos, para apreendê-los é preciso desenvolver intimidade com seus textos. Isso não acontece com o leitor eventual, que pula de livro em livro, que lê de tudo, mas não se aprofunda no fundamental. Na verdade, não precisa ir muito fundo, o problema é que a Revista Espírita, para muitos espíritas, não é considerada obra basilar. É nela que encontramos Kardec sendo elegante em toda sua inteligência. Jamais impôs o Espiritismo, não fazia questão de prevalecer sua opinião, seu comportamento não era o de quem precisa dar a palavra final sobre tudo.

Na contramão disso, vejo os que falam de Espiritismo hoje em dia, sempre há resposta para todos os questionamentos! Para toda dúvida, uma resposta. E se a resposta não foi dada pelo ensinamento dos Espíritos, nada que uma opinião pessoal não possa resolver. Quantas opiniões pessoais proferidas como Doutrina dos Espíritos! Da Psicologia à Física Quântica, sempre dá pra misturar os assuntos no liquidificador da espiritualidade, temperar com palavras bonitas, pôr na forma da caridade e empurrar goela abaixo, e ai de quem não engolir! Como sacerdotes de uma revelação religiosa, a verdade precisa ser dita; não aprendemos com o Mestre Espírita a respeitar os limites da ciência.

Os Espíritas e os Espíritos no Brasil têm seguidores, seguidores fiéis que anseiam por uma palavra, qualquer que seja. Que decepção seria não pingar uma gota de conhecimento de onde costuma transbordar uma cachoeira de ensinamentos. Essa ansiedade está no domínio do pensamento religioso e como tal precisa ser saciado.

Com Kardec, as coisas se passam de outro modo e sua prudência me faz lembrar um ensinamento de Marco Aurélio, no livro Meditações: “Tu não és obrigado a formar uma opinião sobre este assunto que tens pela frente. As coisas em si mesmas não têm o poder de te arrancar um veredicto”. Aliado a esse pensamento, tenho aprendido com Kardec a dizer: não sei.

Nossa, quanta humildade! Nada a ver, é mais uma noção de respeito ao trabalho dos outros, nesse caso, ao trabalho de Allan Kardec. Já há gente demais se colocando a frente do ensino dos Espíritos, falando por eles o que eles não disseram. Felizmente, no caminho do aprendizado espírita eu não estou sozinho e é graças a ajuda dos Espíritos que tenho aprendido uma lição que eles sempre me repetem: é melhor calar do que falar besteira.