Não tem médium, e agora? – parte 2

Nessa segunda parte continuamos a explorar o artigo de Allan Kardec sobre a escassez de médiuns.  Vejamos o que ele diz.

Um médium, e sobretudo um bom médium, é incontestavelmente um dos elementos essenciais em toda reunião que se ocupa de Espiritismo; mas seria erro pensar que, em sua falta, nada mais resta que cruzar os braços ou suspender a sessão.

O que vamos notar ao longo desse texto é que os Espíritos têm voz ativa nas reuniões espíritas. O problema principal atacado pelo texto de Allan Kardec parte do fato de que as diversas reuniões, íntimas ou não, particulares ou não, familiares ou não, que eram realizadas nem sempre dispunham de médiuns. Para que os Espíritos tenham voz ativa torna-se indispensável a figura do médium, por isso Kardec diz “um bom médium é incontestavelmente um dos elementos essenciais em toda reunião que se ocupa de Espiritismo“. Se se ocupar do Espiritismo significa preferencialmente ter bons médiuns a disposição para que os Espíritos se comuniquem. Logo mais vamos ver qual o entendimento de Kardec sobre o que seria um bom médium(essa definição também consta no Evangelho segundo o Espiritismo, no final do item 12). Se não há médium, os espíritas podem fazer outras coisas. Se não há médium, o erro seria não partir para um plano b, cruzar os braços ou suspender a sessão, como diz o texto. Assim como seria erro, na falta de médiuns, desistir de desenvolvê-los. 

Absolutamente não compartilhamos a opinião de uma pessoa que compara uma sessão espírita sem médiuns a um concerto sem músicos. A nosso ver, existe uma comparação muito mais justa ─ a do Instituto e de todas as sociedades científicas que sabem empregar o seu tempo sem ter permanentemente sob os olhos o material de experimentação. Vai-se a um concerto ouvir música. É, pois, evidente que se os músicos estiverem ausentes, o objetivo falhou. 

Allan Kardec diverge dos que comparam uma sessão espírita a um concerto musical. Sem músicos, não há música. Sem música, não há porque haver apresentação. Para quem busca apenas o espetáculo fenomênico, o importante é que haja médiuns e não importa se são bons, o que importa é que eles deem comunicação. E quanto mais melhor: mensagens lindas, palavras e rimas rebuscadas, histórias que rendam livros etc… Se não há preocupação com a qualidade das comunicações, o que importa é a quantidade. Kardec compara a sessão espírita, íntima ou geral, a uma reunião das sociedades científicas, por quê? Por que as sociedades de ciência se debruçam sobre os seus objetos de estudo. As sessões espíritas não deveriam ser diferentes! Kardec dá a dica do que fazer na ausência de instrumentos(médiuns) que permitam a observação dos fenômenos de que trata o Espiritismo. E do que trata o Espiritismo? Leiamos o que consta no Preâmbulo do livreto O que é o Espiritismo:

O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal. 

(Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo.) 

Continua Kardec sobre a escassez de médiuns…

Mas numa reunião espírita, vamos ─ ou, pelo menos, deveríamos ir ─ para nos instruirmos. A questão agora é saber se não podemos fazê-lo sem o médium. Certamente para os que vão a essas reuniões com o único objetivo de ver efeitos, o médium será tão indispensável quanto o músico no concerto; mas para os que, antes de tudo, buscam instruir-se, que querem aprofundar-se nas várias partes da Ciência, em falta de um instrumento de experimentação terão mais de um meio de obtê-lo. É o que tentaremos explicar.

Esse frase de Kardec deveria calar fundo nas nossas consciências: “”Mas numa reunião espírita, vamos ─ ou, pelo menos, deveríamos ir ─ para nos instruirmos. A questão agora é saber se não podemos fazê-lo sem o médium.”

Allan Kardec não disse que devemos ir para a reunião espírita para fazer a caridade. Ele não disse que vamos a sessão espírita para ajudar os outros. Não, ele não disse. Ele disse que se deve ir para a sessão espírita para se instruir. Ajudar os outros e fazer a caridade é uma consequência disso. Num primeiro momento, poderá vir ao nosso pensamento aquela imagem de senhores de monóculo, confabulando em reunião sobre os Espíritos e suas comunicações. Afinal, se Kardec disse que todos devem ir em busca de instrução então o Espiritismo é coisa mais para intelectuais. Pensar dessa forma é um erro. Não devemos perder de vista jamais que a instrução moral faz parte da instrução espírita. O estudo das virtudes e vícios que possuímos está intimamente ligado com o ensino dos Espíritos e é ponto fundamental inclusive para as boas comunicações. O suporte dos Bons Espíritos, dos anjos da guarda, visa exatamente as transformações morais que precisamos realizar. Se reunir com os Espíritos, estudar com os Espíritos é estudar o Espiritismo, e estudar o Espiritismo é adquirirmos cada vez mais consciência de quem somos, mas mais ainda do que precisamos mudar para sermos melhores. Vejamos a definição do que é o Espiritismo:

O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas mesmas relações. 

(Allan Kardec, O que é o Espiritismo, Preâmbulo.)

O contato com os Espíritos não deverá ser apenas uma atividade assistencial, um pronto-socorro do qual entramos e saímos sem tirarmos qualquer ensinamento que seja útil ao nosso melhoramento. A filosofia espírita reside em extrair do contato com os Espíritos todas as consequências morais que derivam desse contato. E essas consequências morais dizem respeito a vida que vivemos, quem somos e o que temos feito de nós.

As consequências morais do Espiritismo são tão fundamentais que sem elas, não é possível contarmos com bons médiuns; sem a devida aplicação à transformação moral que precisamos realizar, não é possível uma boa assistência espiritual. Vejamos o que Kardec diz sobre os bons médiuns:

Para começar, diremos que se os médiuns são comuns, os bons médiuns, na verdadeira acepção da palavra, são raros. Diariamente a experiência prova que não basta possuir a faculdade mediúnica para ter boas comunicações. Mais vale, pois, privar-se de um instrumento, do que o ter defeituoso. Por certo, para os que buscam nas comunicações mais o fato do que a qualidade; que assistem mais por distração do que para esclarecimento, a escolha do médium é bastante indiferente, e aquele que maior quantidade de efeitos produz será o mais interessante. Mas nós falamos dos que têm um objetivo mais sério e que veem mais longe. A estes é que nos dirigimos, pois estamos seguros de que nos compreendem.

Kardec é claro: não basta ser médium para que se tenha boas comunicações. Para quem busca outro algo nas comunicações dos Espíritos que não seja a própria instrução ou a própria melhora moral, não tem que se preocupar se o médium é um bom médium e se a reunião é amparada pelos bons espíritos. Você pode pensar que basta a reunião espírita ter como objetivo fazer a caridade que então ela será bem assistida. Então vamos pensar. Que adianta os espíritas se reunirem para fazer a caridade se não se fazem menos orgulhosos, menos egoístas, menos duros uns para com os outros? Os bons conselhos que ouvem dos Espíritos, ao invés de aplicarem a si mesmos, eles apontam para o outro, veem o argueiro no olho do outro, mas não veem a trave no seu. Do que adianta se reunir com os Espíritos? Vejamos o que Kardec diz na Revista Espírita de Fevereiro de 1859 sobre Escolhos dos médiuns

A mediunidade não é nenhum sinal de mérito pessoal. O mérito, portanto, não está na posse da faculdade medianímica, que a todos pode ser dada, mas no uso que dela fazemos. Eis uma distinção capital, que jamais se deve perder de vista: a boa qualidade do médium não está na facilidade das comunicações, mas unicamente na sua aptidão para só receber as boas. Ora, é nisto que as suas condições morais são onipotentes; é nisso também que ele encontra os maiores escolhos.

As condições morais são onipotentes sobre as boas comunicações, diz o texto. Essa onipotência traduz-se assim: desde que haja esforço para a transformação moral, e é isso que caracteriza os bons espíritas, pode-se contar com uma boa assistência espiritual. Os bons espíritos a isso se vinculam naturalmente. A participação ativa dos espíritos é essencial para que nesse contato com os que morreram, os homens possam obter diretamente as lições que precisam para se melhorarem, mas se não há médiuns a disposição, Kardec irá indicar outras fontes de estudo que não substituem os Espíritos, mas que também são úteis. O erro dos espíritas consiste em tirar os Espíritos dos seus estudos. O erro maior ainda é ficar sem estudar e por isso que Kardec na continuação do seus texto irá compartilhar conosco seus conselhos. Continua…