Um conceito fundamental de Kardec foi adulterado

Nos comentários do nosso último vídeo surgiu um link para um texto intitulado  Um conceito fundamental de Allan Kardec foi adulterado!

O assunto do texto gira em torno da polêmica afirmação de que a quinta edição de A Gênese de Allan Kardec foi adulterada. O autor do texto afirma que a quinta edição promoveu a extirpação de conceitos doutrinários, e como estudioso de Allan Kardec, propõe que esses conceitos sejam recuperados. Muito louvável, diga-se de passagem, afinal são poucos os que valorizam a obra espírita em seus fundamentos.

Qual é o fato? A quinta edição foi revista, corrigida e alterada. Como todos podemos ler na folha de rosto do livro.

O autor do artigo, o senhor Paulo Henrique de Figueiredo, discorre sobre uma das alterações que foram feitas. Segue os trechos do Capítulo III de A Gênese.

“O instinto se enfraquecer, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque assim domina a matéria”. Esse é o trecho da quinta edição no item  10.

E esse das edições anteriores no item 9, o destaque é para o trecho removido na quinta edição:

“O instinto se debilita, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque assim domina a matéria; com a inteligência racional, nasce o livre arbítrio o qual o homem usa a seu capricho; então, exclusivamente cabe a ele a responsabilidade dos seus atos” 

Paulo Henrique afirma que com a alteração não é possível entender “que o livre-arbítrio não foi uma dádiva divina, mas uma conquista progressiva do espírito, por seu esforço, em suas reencarnações”.

Segundo o autor, o trecho foi removido pela seguinte explicação:

“Quem retirou o trecho certamente acreditava na queda, no castigo divino, num deus vingativo!”

Recapitulando! Ao se comparar os dois parágrafos das diferentes edições, o trecho removido desenvolve uma ideia fundamental e sem o trecho removido não é possível entendê-la. Qual a ideia? Segue a explicação que Paulo Henrique faz em seu artigo:

“Veja que ensinamento extraordinário! Há uma transição natural da condição animal para o espírito humano. Nada é brusco na natureza! Se por um lado a inteligência enfraquece os instintos, por outro vai conquistando a liberdade de escolher, o livre arbítrio! Ou seja, somente na medida desse progresso, vai sendo responsável pelos seus atos! É o fim do conceito do pecado, do carma, da queda, do pecado original, do castigo divino e de todos esses dogmas da antiguidade!”

Vamos aos erros do texto de Paulo Henrique. Primeiro erro: o mais grosseiro porque é dosado de exagero. Qual seria? É o autor afirmar que com a adulteração foram extirpados conceitos doutrinários, conceitos que ficaram desconhecidos por 150 anos. O conceito decorrente da alteração citada acima seria um desses que ficaram ocultos por tanto tempo.

Bem, como posso dizer… Não é que esse ensinamento só tivesse sido dado em a Gênese. A ideia de que o livre-arbítrio se desenvolve a medida que se desenvolve a inteligência já está em O Livro dos Espíritos, vejamos:

849. Qual a faculdade predominante no homem em estado selvagem: o instinto, ou o livre-arbítrio?

“O instinto, o que não o impede de agir com inteira liberdade, no tocante a certas coisas. Mas aplica, como a criança, essa liberdade às suas necessidades; ela se amplia com a inteligência.

Lemos então que a liberdade (livre-arbítrio) se amplia com a inteligência.

A mesma ideia também se encontra no artigo Progresso nas primeiras encarnações, que se encontra na Revista Espírita de Janeiro de 1864.

“Durante longos períodos, a alma encarnada é submetida à influência exclusiva do instinto de conservação. Pouco a pouco esses instintos se transformam em instintos inteligentes, ou melhor, se equilibram com a inteligência, e só mais tarde, e sempre gradativamente, a inteligência domina os instintos. Só então é que começa a séria responsabilidade.”

O que lemos? Que gradativamente, com o progresso, o instinto é dominado pela inteligência e a partir desse desenvolvimento é que há responsabilidade. A séria responsabilidade só é possível por causa do livre-arbítrio que passa a ser possível.

Apesar do tom sensacionalista empregado em seu texto “Esse é um novo ensinamento para os espíritas!“, não é razoável afirmar que devido a alteração ocorrida na quinta edição, os leitores da obra de Allan Kardec ficaram sem conhecer àquele princípio. O que havia sido publicado até a quarta edição e removido na quinta não é era nada novo, como demonstrado.

Agora vamos para o segundo erro, esse é mais sutil. Paulo Henrique coloca que devido a alteração feita para a quinta edição, o entendimento do princípio se perdeu porque não está mais no texto. 

“Mas onde está esse ensinamento? Procure no livro inteiro e você não vai encontrar! Foi retirado da edição adulterada em 1872, que não foi feita por Kardec. “

Paulo Henrique diz para procurarmos no livro (inteiro) que não vamos encontrá-lo, afinal foi removido, não é mesmo?! Eu disse que esse erro é mais sutil, nem tanto, afinal é um erro de interpretação de texto. Não é preciso procurar no livro inteiro àquela ideia do desenvolvimento do livro-arbítrio à proporção da inteligência. No próprio item 10 da quinta edição é possível apreendê-la. Se se escrever do jeito que Paulo Henrique fez e se comparar apenas as frases por ele citadas é claro que vai parecer que a ideia ficou incompleta, mas o item 10 inteiro encerra o princípio supostamente removido na quinta edição. 

10. Estudando-se todas as paixões e, mesmo, todos os vícios, vê-se que as raízes de umas e outros se acham no instinto de conservação, instinto que se encontra em toda a pujança nos animais e nos seres primitivos mais próximos da animalidade, nos quais ele exclusivamente domina, sem o contrapeso do senso moral, por não ter ainda o ser nascido para a vida intelectual. O instinto se enfraquece, à medida que a inteligência se desenvolve, porque esta domina a matéria.

O texto completo diz “nos quais ele (o instinto) exclusivamente domina, sem contrapeso do senso moral, por não ter ainda nascido para a vida intelectual”. Essa é a frase anterior a que é comparada para demostrar o trecho removido.

Vamos ler de outra forma a frase completa: por não ter nascido ainda para a vida intelectual, o que isso quer dizer? Por não  ter desenvolvido ainda a inteligência, o instinto é que comanda, comanda sem o contra peso do senso moral. Então é assim, ao se desenvolver a inteligência, gradativamente a esse desenvolvimento, o instinto não comanda mais absolutamente e por que que não impera mais soberano o instinto? Por que com o desenvolvimento da inteligência passa a haver o contra peso do senso moral. Querido leitor, fora o erro de interpretação de texto, demonstrado, há outra sutileza, dessa vez, filosófica, o contra peso do senso moral que surge com o desenvolvimento da inteligência só é possível por causa da liberdade. Ao se demonstrar a proporcionalidade do senso moral ao desenvolvimento da vida intelectual, está a se afirmar nada mais nada menos que exercício do livre arbítrio é proporcional ao desenvolvimento da inteligência porque sem liberdade não é possível o exercício moral.

Paulo Henrique faz um apelo ao fim do seu texto:

Precisamos restaurar A Gênese original de Allan Kardec, para que essa passagem fundamental, e as outras centenas delas adulteradas, possam ser lidas, estudadas, divulgadas, nos grupos espíritas brasileiros.”  

No apelo que faz afirma que há centenas de passagens adulteradas tal como essa que comentamos. Bem, espero que essas centenas de adulterações sejam do mesmo nível que essa do Capítulo III porque aí então ficará cada vez mais claro que as supostas deturpações alegadas não passam de um problema de interpretação e compreensão do texto.

Termino, como disse Paulo Henrique “na dúvida, ficamos com Kardec”. Na dúvida, fico com Kardec, só que nesse caso não há dúvida, o trecho removido chega a ser redundante e Kardec já operou esse tipo de alteração em diversos dos seus textos. Ah! mas em 1872, Kardec já estava morto! Afirmará, algum espírita. Interessante… Espíritas afirmarem isso dá até a entender que por que alguém morreu, acabou. Bem, mas isso aí é assunto para outra oportunidade.