Questão 935 de O Livro dos Espíritos – Parte 02

A possibilidade de nos pormos em comunicação com os Espíritos é uma dulcíssima consolação, pois que nos proporciona meio de conversarmos com os nossos parentes e amigos que deixaram antes de nós a Terra. Pela evocação, aproximamo-los de nós; vêm colocar-se ao nosso lado, nos ouvem e respondem. Desse modo, cessa, por bem dizer, toda separação entre eles e nós. Auxiliam-nos com seus conselhos, testemunham-nos o afeto que nos guardam e a alegria que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós, grande satisfação é sabê-los ditosos, informar-nos, por seu intermédio, dos pormenores da nova existência a que passaram e adquirir a certeza de que um dia nos iremos a eles juntar.


O comentário de Allan Kardec sobre o que é respondido pelos Espíritos na questão 935 nos remete o pensamento à essência do Espiritismo. O leitor de O Livro dos Espíritos obtém uma informação valiosíssima: através dos estudos do Espiritismo, ele tem a oportunidade de entrar em comunicação com os mortos, não com qualquer falecido, mas com os seus parentes e amigos que já morreram.

Essa observação é causa de polêmicas entre Espíritas que não conhecem a obra de Allan Kardec. Imagine alguém que após se deparar com esse conteúdo de O Livro dos Espíritos recorra a um centro espírita em busca de orientações a respeito do que está escrito nesse comentário a questão 935, o mais provável é que essa pessoa seja admoestada no sentido de que não deve fazer isso, fazer o quê? Pôr-se em comunicação com seus parentes e amigos falecidos. Que contrassenso, não?!

Os Espíritas da atualidade são capazes de ensinar exatamente o contrário do que Allan Kardec diz com todas as letras em todos os seus textos.

Se esse leitor de o Livro dos Espíritos fosse alguém lá do século XIX, contemporâneo ao surgimento do Espiritismo, e quisesse obter mais informações sobre como fazer para se comunicar com seus parentes e amigos mortos, ele enviaria uma carta com tais dúvidas para o endereço do autor da obra. O citado autor lhe responderia de maneira que ele pudesse entrar em comunicação com seus Espíritos queridos da melhor maneira possível.

Para responder a essas e a outras questões dos leitores de O Livro dos Espíritos, é por todos sabido que Allan Kardec, se viu obrigado a publicar um livreto chamado “Instruções práticas sobre as manifestações espíritas”, essa obra vinha a público para atender a essa demanda. Tão grande a necessidade de ensinar aos Espíritas a parte experimental do Espiritismo que, em 1861, Allan Kardec publica o Livro dos Médiuns, que também possui outro título: Guia dos Médiuns e dos Evocadores. Allan Kardec afirma que esta obra seria o complemento daquela, o Livro dos Espíritos.

Allan Kardec, que não se contradiz, oferece aos Espíritas outra obra que lhes ensina a melhor maneira de se pôr em comunicação com os Espíritos. Os Espíritas deveriam recomendar O Livro dos Médiuns sempre que questionados sobre como se faz para obter a comunicação dos parentes e amigos falecidos. Esse é o papel daquela sua publicação, viabilizar o fenômeno, mas ao invés disso os Espíritas formulam justificativas, em tons de proibição, que não têm nenhuma base naquilo que Allan Kardec produziu de conteúdo espírita.

Quem proíbe as evocações passa por cima de Allan Kardec. Voltemos a ele.

A nota da questão 935 é tão clara quanto bela. Allan Kardec evoca já na primeira frase a consolação que se tem ao alcance. Diante da morte, da dor da perda e do medo do nada; a possibilidade da comunicação é uma consolação, diz Kardec, dulcíssima. Que consolo mais doce do que podermos conversar com os que já se foram?!

Não mais a amargura de crer que estão destruídos para sempre os que amamos, mas o doce consolo de termos a confirmação de que eles continuam, confirmação dada por eles próprios pois que podem se comunicar conosco.

De acordo com o que os Espíritos asseveram na resposta dada à questão 935, Allan Kardec enfatiza a evocação. Ele explica que pela evocação atraímos os Espíritos para nós, que eles vêm ter conosco, nos ouvem e nos respondem. Não estamos separados dos que morreram. Os que morreram não estão separados da gente. Tudo é uma questão de viabilizar a comunicação e, repito, o Livro dos Médiuns é o manual dos médiuns e dos evocadores. Nesse livro encontra-se tudo o que é suficiente para que a comunicação ocorra da melhor forma possível. Para os que nos são caros ao coração suas comunicações refletem a intimidade dos sentimentos. O que há de profanação na conversa de um pai com um filho, de um filho com sua mãe, a conversa entre irmãos, entre amigos etc? Que pretextos são levantados para impedir que essa doce consolação ocorra? Serão esses pretextos mais fortes do que o sentimento dos que se querem bem? Vejamos como Allan Kardec retrata o intercâmbio de acordo com os seus ensinos:

Auxiliam-nos com seus conselhos, testemunham-nos o afeto que nos guardam e a alegria que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós, grande satisfação é sabê-los ditosos, informar-nos, por seu intermédio, dos pormenores da nova existência a que passaram e adquirir a certeza de que um dia nos iremos a eles juntar.

Se se pensar o quanto é triste ser esquecido, entenderemos por que se alegram os Espíritos ao serem lembrados. Ao testemunharem seu afeto para conosco acabam por, naturalmente, nos oferecerem provas de identidade, provas que só a intimidade do sentimento pode proporcionar. Nos aconselham como quando antes o faziam antes da morte. Certos ou errados, seus conselhos refletem o interesse em nos ajudar. Nada mais natural que o conselho de um parente ou de um amigo querido. A morte não torna esse sentimento sobrenatural.

Allan Kardec destaca que obtemos grande satisfação em:

1 – sabê-los felizes.

2 – informarmo-nos dos detalhes da vida no mundo espiritual.

3 – adquirir a certeza que um dia nos uniremos aos nossos entes queridos.

Através dos nossos amigos e parentes, do contato com eles, dessa troca de ideias, das notícias de como estão e de como vivem no mundo dos Espíritos, somos levados enxergar com mais naturalidade a vida futura. A cultura da comunicação dos Espíritos, principalmente, dos que são íntimos ao nosso coração, patenteia que os mortos estão vivos e que vivos jamais morrerão. Essa possibilidade espírita é uma dulcíssima consolação. Uma consolação proibida, não consola. Uma consolação inalcançável, não consola. Para ser uma doce consolação, como diz Allan Kardec, deve ser permitida e para que seja permitida isso só faz sentido se estiver ao alcance.

Não só é permitida como é incentivada, por Kardec. Não só é possível como é ensinada, por Kardec.