O que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador

No Capítulo XXVII de O Livro dos Médiuns – Das contradições e das mistificações, mais especialmente no item 301, encontramos a sétima questão que é sobre aquilo que Kardec havia classificado como Sistema unispírita, ou mono-espírita que por sua vez seria uma variedade do Sistema otimista.

Transcrevo a questão, vejamos o que ela diz:

7ª Que se deve pensar de doutrinas segundo as quais um só Espírito poderia comunicar-se e que esse Espírito seria Deus ou Jesus?

“O que isto ensina é um Espírito que quer dominar, pelo que procura fazer crer que é o único a comunicar-se. Mas, o infeliz que ousa tomar o nome de Deus duramente expiará o seu orgulho. Quanto a essas doutrinas, elas se refutam a si mesmas, porque estão em contradição com os fatos mais bem averiguados. Não merecem exame sério, pois carecem de raízes.

“A razão vos diz que o bem procede de uma fonte boa e o mal de uma fonte má; por que haveríeis de querer que uma boa árvore desse maus frutos? Já colhestes uvas em macieira? A diversidade das comunicações é a prova mais patente da variedade das fontes donde elas procedem. Aliás, os Espíritos que pretendem ser eles os únicos que se podem comunicar esquecem-se de dizer por que não o podem os outros fazê-lo.

A pretensão que manifestam é a negação do que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador: as relações do mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os seres que lhes são caros e que assim estariam para eles sem remissão perdidos. São essas relações que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo material. Suprimi-las é remergulhá-lo na dúvida, que constitui o seu tormento; é alimentar-lhe o egoísmo. Examinando-se com cuidado a doutrina de tais Espíritos, nela se descobrirão a cada passo contradições injustificáveis, marcas da ignorância deles sobre as coisas mais evidentes e, por conseguinte, sinais certos da sua inferioridade”

O Espírito de Verdade

Os argumentos colocados contra o Sistema unispírita, ou mono-espírita são claros e explicam por que esse sistema não sobreviveuesse texto não é sobre ele, mas sobre algo na resposta do Espírito de Verdade que chama a atenção.

O Espírito de Verdade define o que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador. Pare agora e pense, você que é Espírita, o que você considera ser o que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador? É a fé raciocinada que permite a confiança na existência de Deus? É o entendimento da justiça divina pela lei de causa e efeito? É a prática da caridade? É o resgate da moral dos ensinamentos de Jesus? É paz interior proporcionada por um compreensão maior da vida? Para o Espírito de Verdade não é nada disso, pelo menos não diretamente. O que ele aponta como sendo o que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador são as relações do mundo visível com o mundo invisível, mas ele não pára por aí. Ele especifica qual exatamente é a grande consolação do Espiritismo, em que estaria toda a beleza da Doutrina Espírita, não somente nas relações do mundo visível com o mundo invisível, de um modo genérico, qualquer, mas nas relações dos homens com os seres que lhe são caros!

Isso é muito importante e deve nos fazer pensar maduramente a respeito, afinal, é fato que na atualidade, a imensa maioria dos espíritas não goza do que “o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador”. Quantos e quantos espíritas nascem, crescem, se reproduzem e morrem sem jamais terem recebido pelo menos uma notícia de um familiar ou de um amigo morto? Eu disse a pouco que as relações que o Espírito de Verdade descreve, não são as relações genéricas, por exemplo, quais as reuniões de desobsessão que mais se assemelham a emergências de hospital porque se precisa fazer a caridade, nada de errado com as emergências hospitalares, nada de errado com a caridade, mas nessas reuniões, em geral, não há espaço para comunicações pessoais, até porque não é esse objetivo das desobsessões. É claro que existem exceções e, aqui e acolá, um Espírito de um parente ou de um amigo de um dos trabalhadores dá uma comunicação em reuniões que visam o tratamento espiritual, mas lembre-se você terá que ser trabalhador do grupo espírita, para ser trabalhador você terá que ter feito o curso A, o curso B…e para ser trabalhador na sala mediúnica, você terá que ter feito um curso de mediunidade, módulo 1, módulo 2 etc. Dependendo do grupo espírita, da porta da rua até a reunião mediúnica existe um longo caminho.

Desafio você a ir em algum centro espírita e dizer que gostaria de receber a comunicação de algum ente querido, você vai ouvir algumas desculpas, dizendo que não é bem assim, não é desse jeito…e então serão levantadas uma série de justificativas que quase sempre não tem relação com o Kardec ensinou, no final das contas você ouvirá tantas dificuldades para que a coisa ocorra, tantos “perigos”, que é melhor deixar pra lá. Lembro da conversa que tive com um amigo espírita que atendeu uma pessoa que havia buscado o centro espírita com essa intenção, sabe o que ele disse pra pessoa? Que o centro espírita não faz DDA. DDA? Discagem Direta do Além. Pasmem!

Vejam bem, os grupos espíritas são livres para estabelecer sua organização da forma que bem entenderem, mas quem disse que a prática da mediunidade é patrimônio exclusivo dos centros espíritas? Quem disse que só no grupo espírita se pode obter comunicações de qualidade? Quem foi que determinou que só através de reuniões realizadas dentro das quatro paredes de um centro espírita é que existe a assistência dos Espíritos elevados? Eu sei quem nunca disse isso, Allan Kardec.

Ah! Mas você está esquecendo do trabalho dos grandes médiuns — você pode dizer — através deles é possível obter a comunicação dos parentes e dos amigos que morreram, é ao trabalho deles que o Espírito de Verdade se refere, veja Chico Xavier, para dar um exemplo. Tudo bem, então vamos contar quantos médiuns desenvolvem um trabalho assim? No Brasil, podemos contar nos dedos das mãos. Quantos realizam um trabalho na mesma cidade que a sua? Não tem na sua cidade? Quantas vezes você viaja para outras cidades para encontrar esses médiuns? E quem não tem dinheiro para viajar faz o quê? Onde esses médiuns trabalham é só você chegar que você recebe as comunicações? Tem fila, tem a espera…veja que algo tão importante assim, nas palavras do Espírito de Verdade, não pode ser tão difícil, tão inacessível e tão caro. Caro sim porque, pense bem! Se é preciso viajar, se hospedar e aguardar até que se tenha uma notícia de um ente querido falecido, então todos os que não têm condições financeiras estariam privados do gozo do que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador.

Outra coisa, se surgir um médium onde você mora que se preste a essas comunicações, ele vai sofrer alguns preconceitos por ele não ser o Chico Xavier, vão dizer que o médium está imitando o Chico(como se imitar o Chico fosse errado),  que o médium está obsediado, quem o médium quer ter fama etc…Ora! Se não é todo médium que pode ser Chico Xavier e como Chico Xavier morreu, então vejamos quantas dificuldades para se obter tais comunicações! Eu tenho absoluta certeza de que não era disso que o Espírito de Verdade estava falando.

Para se conseguir o que o Espiritismo tem de mais belo e mais consolador não é possível que hajam tantas dificuldades ou tantos perigos como costumam dizer por aí os que não entenderam Allan Kardec!

Disse o Espírito de Verdade sobre a importância da relação dos homens com os Espíritos dos seus entes queridos ou amigos:

“São essas relações que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo material. Suprimi-las é remergulhá-lo na dúvida, que constitui o seu tormento; é alimentar-lhe o egoísmo.”

Allan Kardec desenvolveu muito bem isso que o Espírito de Verdade disse nessa frase “identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo material”. No artigo Utilidade de certas evocações particulares  na Revista Espírita de Julho de 1863. Kardec diz:

“Neles(os Espíritos inferiores), a ligação entre a vida corporal e a vida espírita é mais íntima; nós a compreendemos melhor, pois nos toca mais de perto. Aprendendo através deles mesmos em que se tornaram, o que pensam, o que experimentam as pessoas de todas as condições e de todos os caracteres, tanto os homens de bem como os viciosos, tanto os grandes quanto os pequenos, os felizes como os infelizes do século, numa palavra, os homens que viveram entre nós, que vimos e conhecemos, cuja vida real nos é conhecida, como suas virtudes e seus caprichos, compreendemos suas alegrias e seus sofrimentos; a eles nos associamos e colhemos um ensino moral tanto mais proveitoso quanto mais íntimas as relações entre eles e nós. Pomo-nos mais facilmente no lugar daquele que foi igual a nós.”

Nesse mesmo artigo, Kardec ainda desenvolve o problema prático da identidade, a identidade dos Espíritos elevados não importa. Diz Kardec:

“Mas quando o Espírito de nossos parentes, de nossos amigos ou daqueles que conhecemos se nos manifesta, ocorrem mil e uma circunstâncias de detalhes íntimos, nos quais a identidade não poderia ser posta em dúvida. Dessa forma obtemos, de certo modo, a prova material. Pensamos, pois, que nos agradecerão se fizermos, de vez em quando, algumas dessas evocações íntimas: é o romance dos costumes da vida espírita sem a ficção.”

A partir dessas relações o homem é levado naturalmente a desenvolver um sentido mais amplo porque a morte para ele não é mais uma barreira, tem a oportunidade de se comunicar com seus entes queridos e a partir daí os princípios espíritas se consolidam de um modo prático. Não se trata apenas de uma pregação, mas de uma constatação, constatação pessoal, a vida futura não é algo para se crer, é algo que se observa. E dessa observação, o homem é levado espontaneamente a sair de dentro do seu egoísmo porque se altera o seu ponto de vista.

O Espírito de Verdade não se enganou quando disse que as relações do mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os seres que lhes são caros, é o que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador. Se você ainda tem alguma dúvida sobre isso, você precisa ler o artigo da Revista Espírita de Setembro de 1859 – O Lar de uma família espírita.

Esse artigo é para escandalizar qualquer espírita menos afeito a obra de Allan Kardec! Se você comentasse no centro espírita que uma família faz o que a família espírita descrita nesse artigo fazia, eu tenho certeza que alguém iria gritar, blasfêmia! Se trata de uma mãe que juntamente com seus filhos, evoca o marido recém falecido! Sim, o marido morreu, a mãe e um dos filhos eram médiuns, o marido era evocado e se comunicava em casa regularmente, veja o que Kardec diz sobre isso(mas leiam o artigo).

“É um espetáculo realmente edificante a vida dessa piedosa família. Alimentadas nas ideias espíritas, essas crianças não se consideram separadas do pai. Para elas, ele está presente.”

“Como são belas essas reuniões, na sua tocante simplicidade! Como tudo, ali, fala ao coração! Como é possível sair delas sem estar impregnado do amor ao bem? Nenhum olhar de mofa, nenhum sorriso cético vem perturbar o piedoso recolhimento.”

Sinto muito informar, mas estamos longe de vivenciar toda a beleza e toda a consolação do Espiritismo e isso se explica porque relatos como esse nunca chegaram até nós. E nunca chegaram por que Allan Kardec continua sendo ignorado, mas Allan Kardec está ao alcance de qualquer um, o Espiritismo está ao alcance de qualquer um. Resta-nos estudá-lo e conhecê-lo a fim de que possamos gozar o que Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador.