O dia que os espíritas brasileiros levaram um puxão de orelha

A Revista Espírita continuou a ser publicada depois que Allan Kardec morreu. A edição de Junho de 1869, primeiro mês da publicação sem a direção de Allan Kardec, é algo para se ler com muita atenção. A edição de Junho é peculiar porque nela já fica evidente a queda de qualidade do periódico, a partir de sua leitura fica fácil entender por que a coisa não foi muito longe. Nessa edição há um artigo que faz referência ao Espiritismo no Brasil, faz referência mais particularmente ao periódico Baiano: O Echo de Além Túmulo.

O texto é claro, faz crítica à postura assumida pelo periódico Brasileiro. “Para nós, o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada”. O autor do texto na Revista Francesa se refere ao fato de que O Echo de Além Túmulo em suas publicações havia estabelecido a religião católica como sendo a que deveria prevalecer sobre as demais e para isso o Espiritismo seria o seu grande auxiliar. Segue alguns trechos do artigo de Inácio José da Cunha, intitulado O Espiritismo no Brasil, que tem a primeira parte publicado no número dois(Setembro de 1869) e a parte final no número três(Novembro de 1869) do Echo de Além Túmulo.

O texto claramente joga a ideia do Deus Trino como se o Espiritismo a validasse. O que o Espiritismo tem a ver com os mistérios e verdades do Catolicismo? A ideia de reunir todos os homens sob a bandeira de uma única religião católica não fica tão explícita no trecho acima como nesses outros aqui abaixo.

A fusão de todas as crenças no Catolicismo vai de encontro a principal máxima espírita de que Fora da caridade não há salvação que Kardec estabelece justamente para sair do círculo de ideias de que Fora da religião não há salvação, se não é a religião em geral que salva, muito menos o Catolicismo teria alguma prevalência sob as demais do ponto de vista espírita.

Esse Espírito Anjo de Deus permeia as publicações de O Echo de Além Túmulo. O Espírito não se faz de rogado e alimenta a deturpação do Espiritismo em razão da supremacia Católica. Quanto a isso Kardec só não consegue ser mais claro do que água. Vejamos o que diz na Revista Espírita de Maio de 1859, ou seja, dez anos antes da publicação de O Echo de Além Túmulo:

“Melhor observado desde que se vulgarizou, o Espiritismo vem lançar luz sobre uma porção de problemas até aqui insolúveis ou mal resolvidos. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião e a prova é que conta como adeptos homens de todas as crenças, os quais, nem por isso, renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos, que praticam todos os deveres de seu culto; protestantes de todas as seitas; israelitas, muçulmanos e até budistas e bramanistas. Há de tudo, menos materialistas e ateus, porque essas ideias são incompatíveis com os princípios espíritas.

Assim, pois, o Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. É verdade que ele tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas. Essas consequências são compatíveis com o Cristianismo, porque o Cristianismo é, de todas as doutrinas, a mais esclarecida, a mais pura, razão por que, de todas as seitas religiosas do mundo, são as cristãs as mais aptas a compreender o Espiritismo em sua verdadeira essência.

O Espiritismo não é, pois, uma religião. Do contrário, teria seu culto, seus templos, seus ministros. Sem dúvida cada um pode transformar suas opiniões numa religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas, mas daí à constituição de uma nova igreja há uma grande distância e penso que seria imprudência seguir tal ideia. Em resumo, o Espiritismo ocupa-se da observação dos fatos e não das particularidades desta ou daquela crença; da pesquisa das causas; da explicação que os fatos podem dar dos fenômenos conhecidos, tanto na ordem moral quanto na ordem física, e não impõe nenhum culto aos seus partidários, do mesmo modo que a Astronomia não impõe o culto aos astros, nem a Pirotecnia o culto ao fogo.”

E para que não haja dúvida um outro texto de Março de 1863 no qual Allan Kardec diz o seguinte:

“A Sociedade Espírita de Paris, depois de tomar conhecimento da carta do Sr. M… e das perguntas sobre as quais deseja que ela se pronuncie em sessão solene, sente-se no dever de lembrar ao autor da carta que o fim essencial do Espiritismo é a destruição das ideias materialistas e o melhoramento moral do homem; que ele não se ocupa, absolutamente, de discutir os dogmas particulares de cada culto, deixando sua apreciação à consciência de cada um; que seria desconhecer tal fim transformá-lo em instrumento de controvérsia religiosa cujo efeito seria perpetuar um antagonismo que ele tende a eliminar, chamando todos os homens para a bandeira da caridade, e levando-os a não verem em seus semelhantes senão irmãos, sejam quais forem as suas crenças. Se, em certas religiões, há dogmas controversos, é preciso deixar ao tempo e ao progresso das luzes o cuidado de sua depuração. O perigo dos erros que poderiam encerrar desaparecerá à medida que os homens fizerem do princípio da caridade a base de sua conduta. O dever dos verdadeiros espíritas, dos que compreendem o fim providencial da doutrina, é, pois, antes de tudo, aplicar-se em combater a incredulidade e o egoísmo, que são as verdadeiras chagas da Humanidade, e a fazer prevalecer, tanto pelo exemplo quanto pela teoria, o sentimento de caridade, que deve ser a base de toda religião racional e servir de guia nas reformas sociais. As questões de fundo devem passar à frente das questões de forma. Ora, as questões de fundo são as que têm por objeto tornar os homens melhores, visto que todo progresso social ou outro não pode ser senão consequência do melhoramento das massas. É a isto que o Espiritismo tende, e assim prepara os caminhos a todos os gêneros de progressos morais. Querer agir de outra forma é começar um edifício pelo telhado, antes de assentar os alicerces. É semear antes de haver preparado o terreno.”


 

Na Revista Espírita sem Allan Kardec se lê o seguinte:

“Não ignoramos o caráter e a crença daqueles a quem se dirige O Echo de Além Túmulo devem levar o Sr Luiz Olympio a contornar certas suscetibilidades. Mas acreditamos, por experiência, que a melhor maneira de conciliar todos os interesses consiste em evitar as questões que cada um deve resolver em sua própria consciência.

Segue o artigo completo:

Não há dúvida de que o objetivo pelo qual o Catolicismo era exaltado visava não bater de frente com o establishment. Basta pensar que o Catolicismo era a religião oficial do Estado. O próprio texto francês reconhece isso, mas não aprova. A orientação da Revista francesa é coerente: “mas acreditamos, por experiência, que a melhor maneira de conciliar todos os interesses consiste em evitar as questões que cada um deve resolver em sua própria consciência”.  Os que cuidaram da Revista Espírita não esqueceram Kardec tão de imediato, a orientação dada respeita ainda o que havia sido estabelecido na prática espírita. Já aqui pelo Brasil, a doutrina espírita foi servida à la carte(qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência). Não à toa as dissenções no iniciante movimento espírita brasileiro. Claro! Havia quem não estivesse a fim de dar uma rasteira em Kardec. Nem todo mundo estava disposto a difunfir o Espiritismo aqui no Brasil de modo contrário do que Kardec havia ensinado.