Não tem médium, e agora? – parte 7

O uso da mediunidade para os estudos espíritas dos espíritas está explícito na obra de Allan Kardec. Estudar Espiritismo é estudar com os Espíritos, mas se não há médiuns então isso pode se dar de outra maneira, a terceira opção que Kardec apresenta em seu artigo de Fevereiro de 1861 é a seguinte:

3 ─ Ler, comentar e desenvolver cada artigo de “O Livro dos Espíritos” e de “O Livro dos Médiuns,” bem como todas as outras obras sobre o Espiritismo.

Vamos ver isso melhor! Além de suas obras Kardec recomenda outras que sejam sobre Espiritismo. Muito bem, então aqui vai um alerta para todos os que admiram Kardec a tal ponto que são chamados de “espíritas ortodoxos” ou qualquer coisa que o valha: Kardec nunca disse que só a sua obra deve ser a única a ser estudada! Dado o alerta, sigamos com o que ele diz.

Esperamos nos desculpem citarmos aqui as nossas próprias obras, o que é muito natural, pois que para isso foram escritas. Aliás, não passa isto de uma indicação e não de uma recomendação expressa.

Kardec não foi o único a estudar o que ele estudou, muita gente se interessava por aquelas manifestações ao redor do mundo. O mérito de Kardec está em ter sido o único a estudar como ele estudou, com método e racionalidade, de tal forma que produziu um conteúdo profundo apresentado de forma simples, por assim dizer, didática. Fruto de sua dedicação ao antever todas as consequências filosóficas daqueles fenômenos, seu empenho não teve igual e a qualidade da sua obra triunfou porque logo passara a ser identificada como sendo referência.

Nada mais natural do que ele indicar seu próprio trabalho, como ele mesmo diz, afinal fora para isso que os livros foram escritos, para tirar aqueles fenômenos do domínio do sobrenatural, para fomentar um conteúdo capaz de nos responder quem somos, de onde viemos e para onde vamos, para introduzir as pessoas em um conjunto de ideias que seriam capazes de transformar suas vidas, tornando-as menos egoístas, menos invejosas, menos orgulhosas. No entanto, o que ele faz é apenas a indicação, não se trata de uma ordem. Tanto que ele diz em seguida, para o lamento dos fanáticos:

Aqueles aos quais elas não convierem podem livremente pô-las de lado. Longe de nós a pretensão de pensar que outros não as possam fazer tão boas ou melhores.

Quem não gostar da obra de Kardec, é livre para jogá-la no lixo. Basear-se em Kardec para lidar com os Espíritos é uma opção, não uma imposição. Apesar de não considerar seu trabalho como sendo a verdade absoluta, constata um fato: seu trabalho era o único que aliava à quantidade uma qualidade ímpar.

Apenas julgamos que, até o momento, a Ciência nelas é encarada de modo mais completo do que em muitas outras, e que elas respondem a um maior número de perguntas e de objeções. É por esse motivo que as recomendamos. Quanto ao seu mérito intrínseco, só o futuro lhes será o grande juiz.

Voltemos ao fato: qual outra obra poderia ser comparada ao trabalho de Kardec, em quantidade e em qualidade? Àquele tempo, nenhuma. E para regozijo dos admiradores de Allan Kardec, sem sermos fanáticos, até hoje não há outra que lhe equivalha. Pensando bem, não é um regozijo, isso é um pesar. Pensar que o Espiritismo estagnou enquanto doutrina, valendo-se apenas de opiniões que baseiam-se na autoridade pessoal de quem opina, é algo para se lamentar. Mas não nos lamentemos, a concorrência que a obra de Kardec sofre hoje em dia se dá mais no campo religioso do que no campo filosófico ao qual pertence o Espiritismo.

Cada um com sua doutrina, cada um que se instrua por onde bem entender, deixem Kardec, ou seja, deixem o Espiritismo para os Espíritas. O Espiritualismo comporta outros entendimentos. Nós, espíritas, pedimos apenas honestidade aos que tem sua forma particular de pensar o mundo. Que honestidade? A honestidade de batizar suas doutrinas com outro nome. Para não confundir alhos com bugalhos. Foi o que Kardec fez, para o que apreendeu daqueles fenômenos insólitos, ele deu o nome de Espiritismo.

Kardec encerra sua sugestão indicando uma obra que lançaria muitos anos a frente: o catálogo racional.

Daremos um dia um catálogo racional das obras que direta ou indiretamente tratam da Ciência Espírita, na Antiguidade e nos tempos modernos, na França e no estrangeiro, entre os autores sacros e os profanos, tão logo tenhamos reunido os elementos necessários. É um trabalho naturalmente muito longo, e ficaremos muito agradecidos às pessoas que quiserem facilitar-nos a tarefa, fornecendo-nos documentos e indicações.

A época que Kardec escreveu isso o catálogo racional ainda estava longe de ser publicado, se sua sugestão foi para estudarmos as obras que tratam do Espiritismo, no catálogo encontramos um prato cheio. Nele vamos ver o filtro de Kardec quanto as obras que sugere, muitas delas, inclusive, já citadas ao longo do tempo de publicação da Revista Espírita. Se pudéssemos atualizar esse catálogo, muitas obras entrariam na lista? Isso vai depender do critério utilizado, por isso urge pensarmos o Espiritismo como Kardec o pensou e trabalharmos o conteúdo dessa doutrina pelo exemplo que ele nos deixou, a não ser que tenha alguém fazendo melhor, se tiver, por favor, queremos conhecer porque o Espiritismo precisa avançar.