Kardec morreu

Kardec morreu em 31 de março de 1869. Quem dera que essa tivesse sido a sua única morte! Mas por causa dela, outra vem se dando ao longo do tempo e sua gravidade é proporcional ao esfacelamento que causa. A ruína das células não é mais devastadora do que a desagregação das ideias ou do que a decomposição do pensamento. O corpo de Allan Kardec começou a se dissolver naquela data e com ele o vigor da doutrina espírita. O Espírito de Kardec sobreviveu, mas seu espírito morre a cada dia.

O espírito do grande mestre espírita morre cada vez um pouco mais toda vez que…

Toda vez que você faz uma palestra espírita sem dar espaço para perguntas, para o debate, para o contraditório.

Toda vez que ao fazer uma palestra sobre Espiritismo, você não dá as referências daquilo que diz e se as dá, elas são tão frágeis quanto místicas.

Toda vez que você confunde o Espiritismo com suas crenças e preferências pessoais.

Toda vez que você quer que sua opinião prevaleça fazendo ela se passar por doutrina espírita.

Toda vez que ao se deparar com um conteúdo espírita seja em palestra, em livro ou em um simples texto, você não vai atrás de estudar e de saber qual a base que dá fundamento àquelas ideias.

Toda vez que você divulga uma literatura que se quer espírita, mas que concorre pelo teor fantástico com O Senhor dos Anéis.

Toda vez que você se irrita quando é questionado, seja pelo que diz em palestras, cursos, rodas de estudo, reuniões, seja onde for.

Toda vez que em nome do lucro, você não se preocupa com o conteúdo de livros que se dizem espíritas desde que eles vendam bastante nas suas livrarias.

Esse espírito morre um pouco mais toda vez que você faz do espaço espírita um palanque para suas opiniões políticas.

Toda vez que você assiste uma palestra e o que é dito entra por um ouvido e sai pelo outro, sem filtrar os equívocos e sem assimilar o que é útil.

Toda vez que você acredita em tudo o que Espíritos dizem.

Toda vez que você trata como herege aqueles que não acreditam em tudo o que dizem os Espíritos.

Toda vez que você endeusa palestrantes.

Toda vez que você idolatra médiuns.

Toda vez que você se endeusa como palestrante ou se idolatra como médium.

Toda vez que você acha que já estudou demais e que já sabe o suficiente porque leu uns trechos de o livro dos espíritos, uns trechos do evangelho segundo o espiritismo.

Toda vez que você diz que não precisa estudar porque já trabalha há vários anos fazendo a caridade.

Toda vez que como médium, você se frustra por não ser reconhecido e admirado pelas comunicações que recebe.

Toda vez que você como médium, você faz de tudo para que suas mensagens sejam publicadas em livro, sem nenhum tipo de controle ou de critério.

Toda vez que como médium, você não dá atenção aos conselhos que recebe dos Espíritos porque no fundo acha que esses conselhos são somente para os outros.

Toda vez que como médium, você se melindra por terem feito questionamentos a respeito das mensagens das quais você foi instrumento.

Toda vez que você trafica a mediunidade seja pelo dinheiro ou pela fama.

Toda vez que você diz que a sua vida tá um inferno por causa dos obsessores.

Toda vez que você responsabiliza a todos pelas escolhas que você faz.

Toda vez que você acusa, julga e condena os outros, esquecendo que o mérito da indulgência é o da caridade.

Toda vez que você deixa de fazer o bem porque o seu interesse vem em primeiro lugar.

Toda vez que você acha que humildade é se fazer de coitado.

Toda vez que você não reconhece os próprios erros.

Toda vez que você não se acha digno de conviver e de se relacionar com os bons espíritos porque afinal isso é coisa para missionários.

Toda vez que você acha que ser espírita é atender certas conveniências, vestir-se de um certo jeito, ouvir determinadas músicas, falar de determinada maneira.

Toda vez que você acha que fazer a caridade é uma coisa e transformar-se moralmente é outra.

Toda vez que você se obriga a prática da mediunidade porque tem medo dos obsessores.

Toda vez que você faz o bem porque quer ir para um lugar melhor depois da morte.

Toda vez que você faz a caridade porque quer ser salvo.

Para muitos espíritas, o espírito de Kardec morre a cada ano que passa apesar das homenagens feitas por ocasião de datas como essa do dia 31 de março… Homenagens feitas muito mais para cumprir tabela. A melhor homenagem é valorizar sua obra, vivenciando a filosofia espírita, desenvolvendo as virtudes cristãs.

Para muitos, Kardec é apenas o codificador. Sem saber o que isso quer dizer. Muitos dos que homenageiam Kardec por ocasião da sua morte, nem sabem que ele viveu ou como viveu. Ele que ainda vive, não somente como Espírito imortal, mas através da sua obra. Obra ignorada, obra esquecida, obra pouco estudada, quase nunca considerada.

Vive ainda em sua obra apesar de asfixiado por autores, palestrantes, pesquisadores, médiuns, gurus cada qual com suas opiniões, cegamente aceitas como doutrinas. Cabe aos espíritas que o conhecem, o admiram e o valorizam, ressuscitá-lo. Que o seu exemplo de lucidez, mas acima de tudo seu exemplo de tolerância, de humildade e de amor ao próximo viva em cada um de nós que temos a oportunidade de estudar o Espiritismo.