Kardec desatualizado ou o que vale é o que meu espírito preferido diz

Se você se quiser estudar o pensamento de Allan Kardec através do material de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, organizado pela Federação Espírita Brasileira, há grande chance de você se frustrar. Pelo menos, grande foi a minha surpresa ao perceber que o que a FEB apresenta como modelo de estudo da doutrina espírita baseia-se muito mais na interpretação de terceiros do que nos ensinos de Kardec propriamente ditos. Os textos de Kardec estão lá, mas da forma como são explorados, é como se não estivessem, pois busca-se um entendimento que vai de encontro ao que eles dizem.

O material analisado encontra-se na obra complementar, tomo único, Módulo III – O Fenômeno da Intercomunicação Mediúnica, roteiro 5, que é sobre as evocações e as comunicações espontâneas dos Espíritos. Vamos analisar a estrutura desse roteiro que inicia com os objetivos específicos, vejamos:

Analisar as vantagens e as desvantagens das evocações e das comunicações espontâneas.

Explicar como se dão atualmente as comunicações dos Espíritos nos grupos mediúnicos.

 

O material se propõe a analisar as vantagens e desvantagens de se evocar os Espíritos ou de esperar deles comunicações espontâneas. Kardec faz essa análise, mas o material da FEB não segue a análise de Kardec. Nos objetivos específicos busca-se explicar que as comunicações dos Espíritos são de um modo diferente hoje em dia, segundo a interpretação que é dada neste material, o melhor é que os Espíritos apenas se comuniquem espontaneamente. Isso vai ficar claro ao lermos a avaliação do estudo, mas antes de chegarmos lá, temos outras coisas que ponderar sobre este roteiro.

Após a apresentação dos objetivos específicos vem o conteúdo básico. O conteúdo básico contém um trecho truncado do item 269 do capítulo 25 e o item 203 do capítulo 17, ambos de O Livro dos Médiuns. Há um erro na referência que o material apresenta, não existe item 203 no capítulo 27. Este item encontra-se no capítulo 17. Então, você se pergunta: o que tem a ver o conteúdo dos dois capítulos, o 17 e o 25?

Em ambos fala-se de evocação, mas em contextos diferentes. A recomendação do item 203 é para os médiuns iniciantes, Kardec apresenta uma série de explicações sobre porque os médiuns iniciantes devem desenvolver sua faculdade antes de realizarem evocações. Uma vez desenvolvida a faculdade, evocam-se os Espíritos conforme se lê em todos os itens do capítulo 25. Vejamos que o roteiro se propõe, nos objetivos, a analisar as vantagens e desvantagens da prática, mas da forma que o item 203 é colocado faz pesar como desvantagem aquilo que é próprio de um médium iniciante.

O item 269 como é apresentado no conteúdo básico não está completo. Os trechos que são apresentados sugerem que é melhor que os Espíritos se comuniquem espontaneamente. Ainda bem que o roteiro apresenta na sua última parte, nos subsídios, o texto completo do item 269, e ao lê-lo, por completo, entende-se que há mais vantagens na prática da evocação. Vale dizer que a orientação didática do roteiro faz com que os estudantes vejam o material completo dos subsídios e não apenas o conteúdo básico. O trecho removido, mas que encontra-se nos subsídios é o seguinte: 

Algumas pessoas pensam que todos devem abster-se de evocar tal ou tal Espírito, e que é preferível esperar aquele que queira se comunicar. Fundam-se em que, chamando um determinado Espírito, não podemos ter a certeza de ser ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, de seu moto próprio, melhor prova a sua identidade, pois manifesta assim o desejo que tem de se entreter conosco. Em nossa opinião, isso é um erro: primeiramente, porque há sempre em torno de nós Espíritos, as mais das vezes de condição inferior, que outra coisa não querem senão comunicar-se; em segundo lugar e mesmo por esta última razão, não chamar a nenhum em particular é abrir a porta a todos os que queiram entrar. Numa assembleia, não dar a palavra a ninguém é deixá-la livre a toda a gente e sabe-se o que daí resulta. O chamado direto de determinado Espírito constitui um laço entre ele e nós; chamamo-lo pelo nosso desejo e opomos assim uma espécie de barreira aos intrusos. Sem um chamado direto, frequentemente um Espírito nenhum motivo teria para vir a nós, a menos que seja o nosso Espírito familiar.

Lemos nele que Kardec considera um erro a opinião de quem acha que é melhor esperar que os Espíritos se comuniquem espontaneamente. Algumas pessoas pensam que todos devem abster-se de evocar tal ou tal Espírito, e que é preferível esperar aquele que queira se comunicar. Em nossa opinião, isso é um erro.

Em seguida, Kardec apresenta as vantagens de praticar a evocação e as desvantagens de os espíritos apenas se comunicarem de modo espontâneo, ele explica porque considera errada a opinião de quem pensa o contrário. O objetivo do roteiro, de analisar as vantagens e as desvantagens, fica bem comprometido se se não pesar bem o que Kardec diz, o que fica claro é que o objetivo do roteiro não é analisar o que Kardec pensa, mas justificar uma interpretação contrária ao ensino dele. Kardec fica em segundo plano. Kardec como pano de fundo.

Isso fica ainda mais evidente quando se vê que encontra-se como material subsidiário um texto de um Espírito que é contrário às evocações, o Espírito é contrário ao que Kardec ensina. Não vou entrar no mérito da opinião pessoal do Espírito, até porque os argumentos que ele apresenta não tem nada a ver com a análise de Kardec, se ao menos se desse ao trabalho de mostrar em que o estudo de Kardec está errado, mas isso o Espírito não faz.

O que importa é que essa opinião espiritual é apresentada como subsídio ao estudo. O que Kardec pondera como vantagens da evocação não é analisado. O ensino de Kardec resta perdido porque afinal de contas, já vimos nos objetivos específicos, que hoje em dia essas coisas são feitas de um modo diferente. Não poderia ser de outro modo, pois ensina-se o contrário do que ele ensinou. Neste roteiro a opinião contrária de um Espírito prevalece. Veja a seguir o que se espera do estudo realizado, vamos ver o que está nas conclusões e na avaliação do roteiro:

Conclusões

Promover, em conjunto com a turma, um amplo debate sobre as vantagens e as desvantagens das evocações dos Espíritos, realizadas à época de Kardec.

Interpretar o esclarecimento que Emmanuel dá sobre a importância das manifestações mediúnicas espontâneas nos nossos grupos mediúnicos. 

Avaliação

O estudo será considerado satisfatório se: os participantes realizarem corretamente o trabalho proposto e, por consenso, entenderem que é melhor a manifestação espontânea dos Espíritos nas reuniões mediúnicas atuais

 

Atentem para o absurdo da coisa. Busca-se um amplo debate na conclusão. Fala-se sobre as evocações que Kardec fazia a sua época, novamente!, a ideia de que o ensino de Kardec sobre as evocações está desatualizado porque afinal hoje em dia se faz de outro modo.

Na avaliação do roteiro, esse outro modo contrário as evocações, é o que deve ser apresentado como a melhor opção. A avaliação é clara: o estudo será considerado satisfatório se os participantes entenderem, por consenso, que é melhor a manifestação espontânea dos Espíritos nas reuniões mediúnicas atuais.

Pergunto: para que então o amplo debate? Debate-se e debate-se para no fim bater em Kardec, pois o estudo só será satisfatório se todos, todos!, concordarem com o Espírito, e a sua opinião pessoal, e entenderem que o que Kardec ensina está desatualizado pois não serve mais para as reuniões dos dias de hoje.

Pode ser que você concorde com o Espírito. Você é livre para pensar o que quiser. Eu sigo com Kardec, por causa do seu método, por causa da qualidade dos seus estudos com os Espíritos, por causa da seriedade com que realizou suas experiências. Quem tenha suas opiniões pessoais que crie suas próprias doutrinas. Como espírita, fico com Kardec até que demonstrem que ele está errado ou no que seus ensinos estão desatualizados. Façamos o amplo debate, leiamos seus textos por completo, pensemos sobre o que ele nos diz, busquemos a fundamentação de quem diz o contrário. Tudo isso é válido, só não me venham com imposições autoritárias.

O roteiro poderia mudar de nome, ao invés de se chamar As evocações e as comunicações espontâneas dos Espíritos, deveria ser Não importa o que Kardec disse sobre as evocações pois está desatualizado, hoje em dia a opinião desse ou daquele Espírito é que é a verdade.

Segue link para o material da FEB.

Link do material da FEB