Kardec covarde e mentiroso? Nem Divaldo Franco nem Dora Incontri

O que pensam os espíritas que não querem seguir a orientação de AK quanto a neutralidade política da doutrina espírita?

Pensam alguns que Kardec não falava de política porque não existia democracia na França da sua época. Que fique claro! Quem afirma isso, para todos os efeitos, chama Kardec de covarde.  Como se discussão política só fosse o mesmo que fazer oposição. E Kardec como um grande covarde não ia se a meter a besta contra o imperador. Será? 

As razões que Kardec aponta para que não seja feito esse tipo de debate nas reuniões de estudo espírita não tem a ver com o contexto político, social, cultural, etc. As razões que ele apresenta não são externas as reuniões espíritas, dizem respeito a própria qualidade da reunião, são relativas ao recolhimento e homogeneidade, ou seja, razões decorrentes da observação do fenômeno estudado. Qual o resultado das suas experiências? Recolhimento e homogeneidade não são possíveis em um ambiente temperado por controvérsias irritantes. Por isso, o veto era relativo às controvérsias em geral, não apenas políticas, mas também religiosas.

Dora Incontri em um de seus textos sobre Espiritismo e política diz isso:

“E não podemos nos esquecer que Kardec constituiu o espiritismo em plena ditadura napoleônica. Para fundar a Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, teve que pedir autorização da polícia e assumir o compromisso de não tratar de política.  Seu amigo, Maurice Lachâtre, teve que se exilar na Espanha. Victor Hugo estava exilado na Ilha de Jersey” 

Vejamos que ela diz que Kardec assumiu um compromisso, espécie de acordo como quem diz “queremos nos reunir numa sociedade de estudos, por isso concordamos em não falar de política”. Poxa, se o contexto era esse então já à sua época Kardec além de covarde também se fez de mentiroso para os seus contemporâneos pois ele nunca deu essa explicação, seus motivos para não tratar de política sempre foram outros, inerentes ao próprio Espiritismo.

Em algum texto da Revista Espírita ao invés de dizer que controvérsias políticas e religiosas não fazem parte do estudo da doutrina espírita (e não fazem), ele deveria ter dito: amigos, como vocês sabem até poderíamos liberar o debate sobre política nas nossas reuniões espíritas, mas estamos cumprindo ordens e não temos permissão para isso. E Kardec era do tipo que respeitava muito as autoridades. Alguma vez Kardec apresentou essa razão? Nunca. Não que não fosse proibido, mas ele jamais associou o seu veto ao debate político a uma proibição do governo.  

Se a questão política era restrita a França por causa do império de Napoleão III porque então Kardec nas orientações a outros países não mudou o discurso? Poderia dizer: espíritas nós aqui na França respeitamos a autoridade e não nos é permitido o debate político nas nossas reuniões, mas como o assunto é de interesse de todos, debatam esse assunto caso isso não seja um problema nos países de vocês. Alô democracia americana! 

Quando Kardec apresenta o modelo do estatuto da SPEE ele poderia ter colocado um parêntese no art 1º (válido somente para os Franceses). Todos as reuniões e sociedades inspiradas na SPEE no estrangeiro seguiam o exemplo de Kardec abstendo-se do debate político nas reuniões, não porque também em seus países não existia democracia, mas por que as razões dadas por Kardec são relativas às reuniões em si e não há fatores exógenos.

Interessante que Napoleão III, com o passar dos anos, afrouxou seu regime autoritário ao ponto de permitir a liberdade de imprensa e de reunião, já a partir de 1859 era considerado um “império liberal”. Por que então o Kardec não se valeu dessa maior liberdade para inundar as reuniões espíritas com debates políticos? Por que a partir dessa maior flexibilidade ele não mudou a sua orientação quanto a pertinência de debates controversos nas reuniões espíritas? Porque por mais que isso tivesse sido proibido e fosse passível de perseguição, a sua orientação tinha por base o princípio da homogeneidade.

Kardec diz em seus textos que a discussão política não pertence ao objeto de estudo do Espiritismo. Ah, mas eu não concordo com isso? Pra mim, faz; seja feliz com sua doutrina particular que não é a mesma orientada por Kardec.

Quer falar dar suas opiniões políticas associando-as ao Espiritismo assim como faz a Dona Incontri, você é livre para o fazer, mas pense bem antes de abrir a boca para se dizer espírita, leia-se, espírita “Kardecista”, ou seja, que segue a orientação de Allan Kardec pois você não a segue.